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Rauzito

Raul Seixas, ou Rauzito, foi um gênio. Músicas provocativas; letras inspiradas: seu estilo é inconfundível. Estava aqui ouvindo algumas de suas músicas e, para o final de semana, indico aqui uma delas – “Tente outra vez” (primeiro vídeo). Para aproveitar, indico também uma belíssima interpretação de Sandra de Sá dessa mesma música (segundo vídeo).

Bom fim de semana a todos!

Atenção aos psicanalistas de plantão: acaba de ser lançado livro panorâmico sobre a psicanálise: Freud, Winnicott, Lacan, Klein e outros psicanalistas são apresentados ao leitor, com direito a fotos.

Um livro que aparenta ter vindo – como sempre, em se tratando de psicanálise – em boa hora.

O livro de ouro da psicanálise
Manuel da Costa Pinto (Org.)
São Paulo: Ediouro, 2007, 537p.

Superinteressante

Dei uma entrevista para uma matéria da Superinteressante que deverá sair em breve. Adianto aqui três das perguntas que me foram feitas e suas respectivas respostas.

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Na sua opinião, o trabalho (em empresas) de fato pode ser prazeroso e fonte de felicidade? É realista o individuo encarar o trabalho como uma fonte de realização pessoal?
Acho perigoso. E por uma razão em particular: porque não temos controle sobre nosso trabalho, na medida em que ele se confunde com o emprego. Veja, um executivo não é nada fora de uma empresa. Ele pode dizer – e ouvir – que tem grande valor, pois toma decisões importantes, que têm impacto direto em termos de resultado e sobrevivência da empresa. Mas, se a empresa (leia-se: os acionistas ou investidores) achar que ele não está mais “agregando” o suficiente, ele será sumariamente demitido. Seu valor, que era alto, de repente é reduzido a nada (ao menos na perspectiva da empresa que o demite). Se alguém colocar todas as razões de sua vida (e felicidade) no trabalho, ele estará fatalmente suscetível de uma frustração muito maior. Para o trabalho ser prazeroso ele tem de estar sob o controle do indivíduo e depender menos de fontes externas de reconhecimento. Mas aqui surge um paradoxo: o trabalho é, por definição, social – o que significa dizer que sempre vamos precisar de alguém que reconheça nossas obras e confirme nosso valor. Grande parte do “prazer” surge desse reconhecimento. Mas, como eu disse, a empresa nem sempre é a mais capaz de nos reconhecer. Daí tanta “infelicidade”. 

Hoje, cerca de 70% dos brasileiros sofrem de estresse provocado por sobrecarga de trabalho e pressão por produzir mais resultados. Na sua opinião, as pessoas estão felizes com o trabalho? Se não estão, qual a razão disso?
Grande parte das pessoas, creio eu, trabalha por dinheiro e status. Muitos sequer se interessam pelo valor intrínseco ou social de sua profissão. Querem ser reconhecidas, louvadas, aplaudidas e ter, para si mesmas, a sensação de que estão indo bem, de que têm um valor. Não há dúvida de que o stress está associado às condições objetivas de trabalho, de um lado, e também às expectativas irrealistas que as pessoas têm sobre o que o trabalho lhes deve. Isso gera distorções importantes, pois nem sempre a contrapartida de um trabalho duro e extenuante é o reconhecimento e a glória. Muitas vezes, essa contrapartida é a substitução por outro profissional mais esperto e produtivo. O desejo de sucesso, a busca desenfreada por ascensão, está matando as pessoas, sem exagero. No fundo, muitas pessoas buscam sucesso no trabalho em substituição a uma vida interior que elas não têm. A hiperatividade, o frenesi de trabalhar 15 horas ou mais, pode esconder o medo da solidão, uma dúvida cruel e implacável sobre seu próprio valor (ou identidade). Então, há os que trabalham muito como forma de compensação psicológica; há os que trabalham muito porque há uma auto-cobrança impiedosa (ser o melhor, ganhar o máximo, comprar tudo); e há os que trabalham em ambientes doentios, insanos e obsessivos. Estes últimos são, acho eu, os que mais sofrem. E, claro, essa discussão é uma discussão de classe, pois nem estamos mencionando o contingente de pessoas que, ao inverso, não têm nada a fazer (não têm emprego etc.). Estes sofrem com a ausência de atividades.

Em seu livro, o senhor diz que na sociedade de consumo interessa aos trabalhadores, e muito, o quanto se obtém de status com aquele trabalho. E no caso dos indivíduos mais pobres, que fazem trabalhos considerados sem nenhum status (como caixas, faxineiras, operadores de telemarketing), como eles se sentem em uma sociedade que privilegia a aparência (o status)? E que tipo de conseqüência isso pode ter para a relação entre pessoas de diferentes classes sociais?
Excelente questão. Na psicologia há uma linha de pesquisas sobre o que se chama “invisibilidade social”. De fato, quando observamos discursos sobre trabalho, felicidade, auto-realização etc., em geral esse discurso é endereçado aos que estão no núcleo da ordem social – que podem estudar em boas faculdades, que têm recursos para acessar o capital social de seu grupo e da sociedade em que vive etc. Os que trabalham em posições como as que você citou sequer são captados por esses discursos; são profissionais frequentemente “invisíveis”. Entendo que ali não há uma ênfase em carreira, a qual é vivida como uma série muitas vezes não-linear de cargos ocupados. O caixa de supermercado pode querer se tornar supervisor de caixas, que por sua vez pode aspirar a ser gerente de seção etc. A mobilidade é horizontal, muitas vezes. Não há tempo para uma preocupação com “network”, falar outras línguas ou conhecer “outras culturas”. Tempo é sinônimo de sobrevivência. É a sobrevivência o impulso que está na base das “escolhas” de carreira para a classe trabalhadora. O que não significa que não podem melhorar, sobretudo em se considerando a singularidade das pessoas. Mas seria irresponsabilidade ou cinismo dizer que um caixa de supermercado pode se tornar o presidente da rede em que trabalha. Não sei se no Brasil houve a institucionalização do self-made-man, à americana. Aqui, o indivíduo é entregue a si mesmo e tem de “se virar” para sobreviver. Em termos de classe, há um fosso entre os que são “empreendedores” e os que são “gente que se vira”. Ao nível social, esse fosso se expressa na invisibilidade de uma imensidão de trabalhadores.  

O chato e as crianças

No ditado popular, reclamar é “coisa de velho”. Os velhos, de acordo com isso, se incomodam com tudo: barulho, temperatura, com o gosto da comida, com os vizinhos, com os filhos e netos e assim por diante. Ora, não sou “velho” ainda e, mesmo assim, me incomodo muito com algumas coisas, em particular com barulho.

Mas, algo tem me chamado a atenção já há algum tempo, pelo menos desde que me mudei para minha nova casa, que fica perto das quadras de futebol dos prédios vizinhos. Sempre, lá pelas 19h da noite ou aos sábados e domingos à tarde, há muitas crianças brincando – na verdade, jogando bola.

Apesar de eu ser psicólogo, e também por nunca ter tido filho ou irmãos pequenos, não entendo bem qual o “comportamento normal” de uma criança ou pré-adolescente, ali perto dos 10 anos de idade talvez. O fato é que quando esses meus vizinhos jogam futebol, o barulho é muito alto.

Mas o que parece me incomodar não é o barulho em si, mas sua agressividade, que me lembra muito o mesmo tipo de agressividade em estádios de futebol ou em outros esportes ou eventos sociais. Como fui criado, quando pequeno, no campo – onde tínhamos muito contato com a natureza – fico a pensar se esse comportamento infantil “metropolitano” não teria a ver com o fato de que essas crianças têm, como único momento de lazer, esses encontros nas quadras – quando podem “soltar” toda sua agressividade (e, ao que me parece, competitiva já desde bem pequenos).

Não penso em “crianças-anjos”, que jogariam futebol em silêncio de intelectuais; contudo, não é possível que a única maneira de se relacionarem seja aos berros, chutes e pontapés. Deve haver aí o sinal de alguma coisa reprimida que precisa, a todo custo e de qualquer jeito, se manifestar.

De novo, sem qualquer pretensão “científica”, talvez seja a mesma coisa que ocorra nos bares, festas e similares, quando parece haver pouca conversa e muito mais um falatório caótico, onde cada um quer falar mais alto, aparecer mais, monopolizar mais para si a conversa e o olhar dos que estão ao redor.

Ok, pode ser que eu seja mesmo “velho”, antiquado e, claro, muito chato. Mas eu acho que a gente, desde muito pequeno, faz barulho demais sem necessidade.

Depressão e loucura

Para encerrar por hora esse tema da depressão (até porque, se eu continuar, provavelmente o amigo que me visita vai me achar por demais “deprimido”), nada melhor do que recorrer aos clichês. Nesse caso, um “bom clichê” – quem é que já não viu “O grito”, pintura do norueguês Edvard Munch?

Eu gosto muito de uma outra pintura de Munch, chamada “Separação“. Nesta, a gente pode observar a mesma confusão de cores, o mesmo “espírito denso” sugerido pela imagem de ”O grito”, onde há uma sugestão de “fusão” entre pessoa-e-fundo, como se tudo fizesse parte de um mesmo material, formando um único bloco distorcido (exceto a ponte – que, na imagem, é a única coisa concreta, bem como os homens atrás da figura humana em desespero).

Para saber mais sobre o quadro, clique sobre ele.

Ainda pensando sobre depressão, há uma leitura complementar à que fiz no post anterior. Uma leitura, porém, que segue na linha de entender parte da origem da depressão em um fenômeno de mal-estar civilizatório, ou seja: derivado da ruptura no “pacto civilizatório” (lembro-me de ter lido uma vez um belo texto de  Hélio Pelegrino sobre isso).

Nesse sentido, poderíamos entender a depressão como uma “doença” dos inertes numa época em que a inércia é o pior de todos os males. Equivalente a dizer que o deprimido é alguém cujo desempenho fica aquém do esperado pela “civilização” (leia-se, neste caso, a “civilização mercadológica”).

Há um bom par de décadas atrás, a doença que mais incomodava aos “disciplinadores” (higienistas, médicos etc.), era a euforia. Lógico, nada pior do que uma pessoa eufórica numa sociedade regrada e estática (regida pelo casamento pudico, pelas falsidades das aparências sociais etc.).

O inverso, lógico, pode ser verdadeiro – hoje, vivemos na euforia do momento. Fazemos várias coisas ao mesmo tempo; somos às vezes várias “pessoas” ao mesmo tempo. Não há, para os típicos pequenos burgueses de classe média que somos, alternativa senão a euforia profissional e pessoal em todos os sentidos.

Portanto, além de estimulado pelo desejo de espantar o sofrimento e a dor vinculados à depressão, o indivíduo é também pressionado para manter-se em dia e em forma psíquica. É isso de que precisam as empresas, nossas famílias e tudo o mais. Logo, a depressão, nesse seu aspecto, digamos, “social” (não simplemente “biológico”), é uma doença de época.

Antidepressivos

A leitura da última coluna de Contardo Calligaris, na Folha, sobre antidepressivos me despertou, como sempre, a atenção. A pergunta do psicanalista é sobre se os antidepressivos realmente “curam” a depressão ou se apenas a “mascaram” – como faz uma aspirina, quando temos dor de cabeça.

A resposta depende. Em primeiro lugar, depende de se a depressão em questão for resultado de uma alteração no nível de serotonia (um neurotransmissor) cerebral. Ora, nem sempre, quando sentimos um mal-estar como o associado à depressão, ele é originado em uma disfunção biológica dessa ordem. Às vezes (não se sabe dizer quanto), um mal-estar é causado por outros fatores. E aqui entra o segundo ponto.

Esses “outros fatores” são de ordem psíquica, social, afetiva ou discursiva. Quer dizer, como não é possível mensurar in loco o nível de serotonina, tem-se de confiar na descrição que a pessoa faz de seu estado psíquico. E como uma pessoa faz isso? Ora, aqui o pragmatismo de Richard Rorty nos ajuda: a pessoa faz isso recorrendo às crenças presentes em sua comunidade linguística. Explicando: ela diz ter ou não “depressão” dependendo de um padrão (em geral dado pela psiquiatria) que associa certos sentimentos, pensamentos etc. a certas “patologias do espírito”.

Quer dizer, numa visão pragmática, o sentimento se expressa mediante a linguagem, sendo sua magnitude e qualidade interpretados linguisticamente e, como disse, recebendo nesse processo a influência da cultura (ou comunidade linguística). A conclusão que tiro é a seguinte: nosso mal-estar é químico ou psíquico? Velha questão entre corpo e mente, não há dúvida. Mas a resposta de Calligaris, e na qual vejo muito sentido, é: só ex post se descobrirá se a “depressão” em questão é ou não de ordem física, por exemplo, após a administração do antidepressivo.

Ao tomar o andidepressivo, ele pode ou não “funcionar” – desde que o mal-estar ou angústia em questão tenham efetivamente um cunho originário no cérebro (como “órgão”). Mas é bom lembrar que nem todo mal-estar é físico; que nem todo mal-estar é apagado com uma droga. Às vezes (e, novamente, não sei o quanto), um mal-estar (depressão, angústia, tristeza etc.) tem a ver com nossas escolhas de vida, com os ambientes em que estamos, com os desejos que não estamos realizando, com as sombras da vida nas quais podemos nos perder.

A depressão, portanto, é um problema ao mesmo ético, disciplinar (no sentido foucaultiano de disciplina: depressão como construção médica) e “ontológico” (em sentido heiddegeriano, é o “ser” que está esquecido na depressão, e que precisa ser resgatado).

Pergunte ao Mintzberg

Abaixo transcrevo uma entrevista “fictícia” que fiz com Mintzberg, cujas respostas extraí de um texto contido em seu site – e mencionado aqui em outro post.

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Em um artigo recentemente postado em seu site, intitulado “Como a produtividade matou as empresas americanas”, o senhor faz uma pesada crítica à prioridade que as empresas dos EUA têm dado ao mercado financeiro em detrimento de funcionários, crescimento sustentável e mesmo dos clientes. O senhor poderia nos detalhar seu argumento? 
EM: No artigo a que você faz menção, defendo que a produtividade tem destruído as empresas americanas. Isso porque temos de qualificar essa produtividade. Trata-se, na verdade, de ganhos de produtividade no mercado de capitais. Desse modo, entendo que muitos dos ganhos de produtividade sejam, na verdade, perdas de produtividade. Para compreender isso, imagine-se como o primeiro homem de uma grande empresa norte-americana que deseje fazer o máximo de dinheiro da forma mais rápida possível para sua companhia e, claro, para você mesmo. Faça o seguinte: demita todo mundo e venda a partir do estoque. As horas de trabalho, e seus custos, desaparecem ao mesmo tempo em que as vendas continuam crescendo. Você só precisa do incentivo para cortar preços a fim de desembaraçar as ações de sua empresa. Então, a produtividade dispara enquanto você está fazendo caixa – até, é claro, a bolsa quebrar. Portanto, “valor ao acionista” não tem nada a ver com o valor de uma empresa, quanto mais com qualquer valor humano. É um eufemismo para elevar o preço das ações de uma empresa tão rápido quanto possível. 

Como isso repercute nos principais executivos da empresa, quiçá até mesmo na preparação dos futuros executivos, os quais parecem cada vez mais destinados à miopia do “máximo valor da empresa” no mercado de capitais? 
EM: A pressão que os analistas de mercado exercem sobre os presidentes de empresa e sobre os outros altos executivos é no sentido de elevar o valor das ações na Bolsa. Isso faz com que todos mirem na performance mensurável, em vez de nos produtos, serviços ou nos clientes – em outras palavras, no resultado hoje, e não na sustentabilidade de amanhã. A questão é a seguinte: como fazer com que os funcionários dessas empresas foquem sua atenção na maximização do valor ao acionista quando a maioria deles nunca sequer se depararam com os acionistas, muitos dos quais negociantes diários que compram as ações pela manhã e às vende à tarde? A resposta, consistente com a visão econômica da empresa apresentada antes, é 1) manter uma pessoa, o presidente, responsável pela performance da empresa inteira; 2) motivar essa pessoa com opções de ações e similares; e 3) dar-lhe carta branca virtual para agir como quiser – e de forma rápida. Claro, existe uma retórica sobre construir culturas corporativas no longo prazo e encorajar o trabalho em equipe etc. Mas, na realidade é exatamente o contrário que ocorre: as organizações centralizam o poder nos seus principais executivos a um nível jamais visto em décadas. O mercado financeiro tem de ser atendido, e isso significa adentrar na era da liderança heróica, capaz de fazer com que uma pessoa consiga levar qualquer outra a apresentar uma performance no curto prazo, não importando como.   

O que fazer para contornar a situação?
EM: Sugiro um teste simples: qualquer pessoa que, na organização, exigisse um pacote de compensação pessoal massivo que o diferenciasse de qualquer outra pessoa na organização, incluindo proteções que não estão disponíveis para ninguém mais, deveria ser impedida de aspirar à palavra “líder”. Quantos CEOs de hoje passariam no teste? No mais, questione os economistas ingênuos e analistas superficiais; o “valor ao acionista”, que mina o valor da empresa bem como os valores humanos; a “governança”, usada como desculpa para a centralização do status quo; a “liderança” que equivale à arrogância (hubris); a idéia de que a empresa é uma coleção de “agentes” desvinculados de uma comunidade de membros engajados; e questione, por fim, a obsessão com a mensuração de tudo, que põe a quantidade acima da qualidade. 

20 anos sem Drummond

“Na verdade, a reflexão se torna, para Drummond, a condição para chegar à poesia e, a uma só vez, a dificuldade que o impede de alcançá-la. Este é o paradoxo central de que parte sua obra, a contradição que está na raiz de seu percurso poético e que ele vive dramaticamente desde o princípio e não apenas, como se poderia supor, no tempo da madureza e dos densos poemas meditativos, à maneira dos Versos à Boca da Noite, um dos mais belos poemas que escreveu. Neste e em tantos outros, podemos sentir a presença viva da tradição da lírica meditativa do Romantismo que, nos países de língua inglesa deu a linhagem que de Shelley, Keats e Swinburne, vem até Yeats e alguns dos modernos, como o norte-americano Wallace Stevens.

Em Drummond sentimos a força do pensamento como em nenhum outro poeta nosso; e desde o começo, ele experimenta dramaticamente as contradições que enfrenta: seu lirismo nunca é puro, mas, sem prejuízo de sua alta qualidade, sempre mesclado de drama e pensamento. Alguns dos melhores críticos do poeta, como Antonio Candido, autor do notável ensaio Inquietudes na Poesia de Drummond, acham que a obra inicial, marcada pelo humor modernista, em linguagem anticonvencional e irreverente, se organiza em torno do fato. No meu modo de entender, porém, nunca se trata propriamente do fato direto, mas do fato envolvido pela reflexão; há sempre mediação do pensamento, e o fato surge interiorizado: é a repercussão do mundo na interioridade do Eu, no movimento característico da reflexão, do pensar sobre o pensar, mesmo nos poemas-piada.”

Davi Arrigucci Jr., especial para o Estado

O leitor pode ainda apreciar uma sessão de fotos de Drummond e trecho de um de seus poemas (Resíduo) interpretado na voz de Paulo Autran.

Tributo

Para mim, no dia de hoje, faz muito sentido uma frase de Freud acerca dos propósitos da terapia: “que onde há super-ego, aja eu”. O super-ego, na terminologia psicanalítica, refere-se à instância crítica, responsável por sentirmos culpa. Quando sentimos culpa é porque fomos “alertados” quanto à proibição do ato que realizamos. Aí entra o super-ego. O ego não: por meio dele, agimos. Ele é a instância, por assim dizer, “ativa” – operatória. Logo, quanto mais forte for o super-ego, maior é a culpa, maior o sofrimento e a frustração e mais escassa a ação. Daí que, quanto maior o espaço do ego, mais agimos, mais intervimos na realidade, fazemos algo.

Para lembrar de Freud, uma de suas últimas fotos…

 

…e outra, mais clássica, no auge de sua vida e produção:

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