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A verdade sobre a CPMF

Esbravejar sobre o nível da carga tributária virou esporte nacional. Comemorou-se o fim da CPMF como se, repentinamente, a decisão do Senado tornasse a população mais rica porque deixará de pagar 0,38% sobre cada movimentação financeira. Não haverá tal efeito, porque é preciso compensar os 38 bilhões de reais repentinamente retirados do Orçamento da União. Há um evidente oportunismo nos discursos, que propositalmente escamoteiam a necessidade de rediscutir que país se deseja construir. Qualificar a arrecadação da Receita como monstruosa é um dos vários mitos simplistas a se tornar factóide, por envolver questões sensíveis aos custos das empresas e aos bolsos dos cidadãos. 

Números assustam, mas deveriam ser analisados. De janeiro a outubro, a Receita Federal arrecadou 484 bilhões de reais, um crescimento nominal de 14% sobre o mesmo período de 2006. Os críticos da voracidade do Leão esquecem-se de que o Brasil cresceu 5,2% nos três primeiros trimestres do ano. É evidente que o recolhimento aumentou. Além do mais, é preciso descontar a inflação. Segundo a Receita, houve ainda um esforço de cobrança de devedores, a recuperação de depósitos judiciais e maior lucratividade de setores como automotivo, financeiro, metalúrgico, entre tantos outros, que logicamente gerou mais recursos.

Uma parte substantiva dos impostos volta de imediato para a sociedade, diz Leda Paulani, professora de Economia da Universidade de São Paulo (USP). O retorno se dá por meio do pagamento de aposentadorias, pensões e benefícios da receita previdenciária, cerca de um quarto de toda a arrecadação (tabela abaixo). “O viés liberal não faz as contas. Nem tudo se transforma em gasto governamental, em pagamento do funcionalismo ou em obras”, diz a economista.

“A carga não deveria subir mais, mas não é exorbitante”, diz Francisco Luiz Lopreato, do Instituto de Economia da Unicamp. Como Leda, ele acentua que outra parcela generosa da arrecadação da União é devolvida a um estrato mais rico dos brasileiros, por meio dos juros que remuneram os fundos de investimento e os títulos públicos. Nas contas de Amir Khair, consultor e ex-secretário das Finanças do município de São Paulo, da carga tributária de 34,2%, em 2006, foram abatidos 6,8% em juro. O que a União teve em caixa, na verdade, foi 27,4% do Produto Interno Bruto (PIB) para custeio e investimento. E não os alardeados 40% sempre sacados da cartola dos que reclamam da carga.

Por Márcia Pinheiro, edição 476 de CartaCapital

Carreiras e felicidade

A edição de 26 de novembro de 2007 da revista Time traz um dossiê com dados sobre a vida dos norte-americanos. Traça um perfil de como eles vivem; do quão felizes eles julgam ser; e do que fazem para se divertir. Em relação à felicidade e carreira, ficamos sabendo que, no extremo da infelicidade, estão frentistas de posto de gasolina (mais de 94 mil pessoas por todo os EUA, ganhando um salário médio anual de pouco mais de 17 mil dólares). No extremo oposto, no da felicidade, encontramos o clérigo – mais de 37 mil pessoas ganhando um pouco mais do que 37 mil dólares ao ano. Fiquei intrigado com o resultado que mostra ser o clérigo a “profissão” de pessoas mais felizes. Talvez o fato de se considerar um “representante” de Deus na terra seja algo que gere algum sentido glamuroso, por assim dizer, na atividade. Pois não é dinheiro (em segundo lugar no ranking da infelicidade vem os profissionais que consertam tenhado, ganhando ligeiramente menos que o clérigo). Parece que, em termos de carreira, as igrejas oferecem um sentido mais forte a seus quadros: primeiro, talvez porque o emprego seja vitalício; segundo, porque, na micro comunidade em que atuam, são alvo de estima e reconhecimento, portanto, de status. E no Brasil, quais seriam os profissionais mais felizes?

Classe média

Achei uma interessante montagem, a pedido da Carta Capital, da música de Max Gonzaga. O tema: a classe média. Vale a pena assitir.

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Família à brasileira

Saiu hoje na Folha de S. Paulo um dossiê sobre a família brasileira (conteúdo para assinantes). Ali são apresentadas as mudanças nos valores desde que a última pesquisa foi feita, em 1998. Entre as mudanças, nossas famílias parecem ser hoje mais toleráveis à união homossexual, ao namoro um pouco mais “liberal” dos filhos e a fidelidade é agora mais importante do que mulher dona de casa ou marido provedor (como em 1998).

Em relação às mudanças nos laços afetivos que unem os casais, Contardo Calligaris escreveu um texto no qual diz que hoje a parceria de vida, de cunho sentimental “tranqüilo”, parece mais forte do que o amor-paixão ou amor-romântico. Deste seu texto destaco a passagem abaixo:

Entre 1998 e hoje, aumentou o percentual das mulheres que consideram como principal qualidade de um marido sua capacidade de ser companheiro e amigo (de 6% para 11%) e de ser atencioso (de 3% para 10%). Que ele ame a esposa é também crucial, mas talvez esteja mudando nossa idéia do tipo de amor que deve acompanhar e sustentar o casamento. Talvez não procuremos mais o amor-paixão (note-se que a vida sexual satisfatória como item necessário para a felicidade da união ficou com um triste 2%), mas um amor companheiro e amigo, “um amor tranqüilo”, como diz a música.
Se isso fosse verdade, a fidelidade, hoje considerada uma qualidade essencial do marido e da esposa, não seria a exigência possessiva da paixão. Existe uma fidelidade que não consiste em evitar aventuras, escapadas e amoricos paralelos; é o tipo de fidelidade que é exigível de um amigo. Talvez, em suma, esteja aparecendo um novo tipo de casamento moderno, baseado, como deve ser, nos sentimentos, mas não no ideal do amor-paixão romântico nem do da satisfação sexual: uma espécie de aliança sentimental para a vida.
Ia terminar comentando que essa transformação do casamento não seria um mal. A verdade é que ela já está em curso, nas inúmeras uniões que continuam e persistem numa amizade em que, às vezes, parece que o amor se perdeu, quando, de fato, é nessa amizade que ele se transformou.

Tropa de elite

No Estadão de hoje o psicanalista Jurandir Freire Costa analisa a decadência dos valores morais no Brasil dos anos de 1970 a 2007 metaforizada pelos filmes O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, e Tropa de Elite, de José Padilha. Mas contra um fundo ético desolador, Jurandir diz que nem tudo está perdido: ainda nos resta o homem comum. Selecionei um trecho do artigo, destacado abaixo.

Boa parte do desconforto provocado por Tropa de Elite vem do fato de percebermos que o odioso ciclo do crime não tem saída, posto que se alimenta da própria deterioração. Combater o comércio de drogas e armas com Bopes é querer extirpar a violência com mais violência, isto é, com mais da mesma coisa. Faz sentido discutir com seriedade se a legalização das drogas ilegais seria um antídoto possível para a situação; insensato é persistirmos vendo o problema pelas lentes dos habitantes desse submundo. Nesta guerra entre aspas, o inimigo não são os infelizes do lado de lá ou do lado de cá; o inimigo é a consciência degradada dos que consideram que, para o populacho, favela está de bom tamanho. Ou eliminamos essa mentalidade torpe de nossa vida cultural ou nos condenamos a suportar mais e mais carnificina.

Um dos maiores méritos de Tropa de Elite é deixar claro que a banda podre da polícia nada mais é do que o espelho da banda podre de elites que usurparam o direito a portar um nome ao qual jamais fizeram jus. Policiais corruptos e brutalizados, marginais guetificados e usuários irresponsáveis de drogas ilegais não nasceram da cabeça de Zeus. Eles são o refugo de uma ordem sociocultural que manteve o gozo dos direitos democráticos reservado a uma minoria civicamente analfabeta, moralmente míope e culturalmente descomprometida com a construção de uma nação brasileira digna deste nome.

Entretanto, se a “elite” perdeu a cabeça e alma, isso não quer dizer que tudo esteja perdido. Em uma espécie de contraponto à crua denúncia feita por José Padilha, Cao Hamburger assinala o contraste existente entre o Brasil dos restos humanos e o Brasil do cidadão comum. Este último cidadão, em 1970 como em 2007, apesar da pouca visibilidade social, não sucumbiu à moral da descrença. Sua vida, na superfície, é prosaica, mas, no fundo, é o que mantém este país de pé. Trata-se do indivíduo ordinário, que não é santo ou herói, mas, simplesmente, alguém capaz de agir com correção e honradez, se a urgência da questão o exigir. Sem rompante ou bravata, ele cultiva as virtudes cívicas elementares, como apreço pelo trabalho, pela honestidade e pela decência. Embora movido pelo egoísmo narcisista, pela tentação do oportunismo ou pela sedução do sucesso midiático, como qualquer um de nós, também sabe ser compassivo e solidário se assim for necessário. São esses brasileiros que no filme de Hamburger protegem o pequeno personagem, mesmo pondo em risco o próprio bem-estar. São eles a verdadeira tropa de elite dos ideais democráticos de homens como frei Caneca e Joaquim Nabuco; é apostando neles que traremos de volta os órfãos ainda exilados do sonho Brasil.

Morre Andre Gorz

O filósofo francês André Gorz, 84, e sua esposa Dorine, 83, foram encontrados mortos na última segunda em sua casa em Vosnon (oeste francês), lado a lado, por uma amiga que tinha ido visitá-los e encontrou cartas endereçadas a seus familiares.
Gorz, cujo nome verdadeiro era Gérard Horst, era autor de “Écologie et Politique” e “Adeus ao Proletariado” e foi amigo próximo de Jean-Paul Sartre. Ele se aposentara em 1983 para cuidar da mulher, que sofria de uma doença degenerativa a qual se somou um câncer. Muito apaixonado, o casal se refugiou na casa onde foi achado.
O suicídio provocou reações até do presidente Nicolas Sarkozy, que, em comunicado, saudou “o destino singular” do filósofo, “grande figura da esquerda intelectual francesa e européia”.
Em “Lettre à D. Histoire d’un amour”, de 2006, Gorz escreveu a Dorine: “Você continua sempre bela, graciosa e desejável. Fazem 58 anos que vivemos juntos, e eu a amo mais que nunca.
Recentemente me apaixonei por você novamente e novamente carrego em mim um vazio avassalador que só é preenchido por seu corpo apertado contra o meu.”
“Essa presença”, acrescentou, “foi decisiva na construção de uma obra cuja visibilidade só carrega um nome quando este é o de um casal.”

Fonte: Folha de S. Paulo (27 de setembro de 2007)

Depressão nas empresas

Um programa para diagnosticar e tratar depressão entre os funcionários pode melhorar significantemente a produtividade da empresa. É o que diz o estudo desenvolvido pelo dr. Philip Wang, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, publicado no Journal of American Medical Association de 26 de setembro.

Muitos estudos já provaram que faltas constantes, perda de produtividade e acidentes são freqüentemente provocados por depressão. Não ficou claro se, moral à parte, seria financeiramente compensador para as empresas cuidar do humor de seus funcionários.

O custo da depressão na economia do Brasil deve ultrapassar uma dezena de bilhões de reais, e estudos comparativos mostram que a depressão está entre as doenças que mais prejuízos trazem às empresas.

O pesquisador afirma que esse estudo é fundamental para mostrar que cuidar da saúde do funcionário e procurar um eficiente tratamento deve ser tanto de interesse do indivíduo quanto da empresa.

No estudo, o dr. Wang avaliou 604 trabalhadores que receberam diagnóstico de depressão em um sistema de entrevista telefônica e preenchimento de formulários na internet. Metade deles passou a receber apoio por telefone. Puderam também escolher o tratamento de psicoterapia por telefone, em clínica ou medicação antidepressiva. A outra metade recebeu apenas um retorno sobre o resultado de suas respostas e foi simplesmente orientada a procurar ajuda por si. 

Depois de um ano, os empregados que receberam cuidados tinham 40% acima de chance de estar melhor que o grupo que se virou sozinho. Além disso, os funcionários do grupo tratado tinham uma chance 70% maior de estar empregados e trabalhar, em média, duas horas por semana a mais que os do grupo sem apoio.

Nos Estados Unidos, a economia anual da abordagem terapêutica variou entre 1,4 mil e 1,7 mil dólares por indivíduo, contando apenas com as duas horas a mais trabalhadas. Isso sem considerar a mudança de disposição de um indivíduo que estava deprimido e passa a se sentir bem e disposto para trabalhar. Como anuncia o dr. Wang “é uma situação de ganhar-ganhar”.

De: Rogério Tuma. Carta Capital, edição 464

Vocabulário próprio

Acredito que uma das causas de qualquer forma de sofrimento mental seja a impossibilidade de o indivíduo construir uma linguagem própria para se expressar. Pois, no fim, somos produto de uma extensa tradição lingüística que deposita sobre nós um vocabulário de termos e conexões que obscurecem nossa capacidade criativa. O sujeito é, em seu dia-a-dia e em última instância, reflexo de termos concatenados que usa para lidar com situações e pessoas. Por exemplo, no trabalho: repare que a linguagem com que as pessoas se expressam é quase sempre a mesma, quaisquer que sejam as organizações que considerarmos.

Richard Rorty, em uma passagem na qual discute as características do “homem ironista”, diz o seguinte:

[Os ironistas] não esperam ter suas dúvidas dirimidas por algo maior do que eles mesmos. Isso significa que seu critério para dirimir dúvidas, seu critério de perfeição privada, é a autonomia, e não a filiação a outro poder que não eles mesmos. Tudo com que qualquer ironista pode cotejar o sucesso é o passado – não por ficar à altura dele, mas por redescrevê-lo em seus próprios termos, com isso tornando-se capaz de dizer: ‘Assim eu quis’ [...] Ele quer poder resumir sua vida em seus próprios termos. A vida perfeita será aquela que se encerrar na certeza de que o último de seus vocabulários finais, pelo menos, terá sido realmente todo seu”.

A afirmação do estilo pessoal. Não a certeza sobre a “verdade” desse estilo, sobre a correspondência dele com qualquer critério exterior (por exemplo, com o que todos estão fazendo). Não a confirmação da linguagem cotidiana, do “falatório” que muitas vezes nos limitamos a reproduzir. Trata-se de criar o gosto pelo qual será julgado. Ecoando Nietzsche: “tornar-se quem é” - ou seja, “tornar-se aquele em que o indivíduo se transformou no decorrer do gosto pelo qual acabou julgando a si mesmo”.

Nietzsche

Encontrei no youtube um filme português bem interessante sobre a vida do filósofo. Vale a pena.

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