Dessa anarquia, ficou subitamente claro que os macacos infinitos que agora abasteciam a internet eram governados pela lei do darwinismo digital: sobreviveria quem gritasse mais alto e expressasse sua opinião com mais força. Dessa forma, a única maneira de prevalecer intelectualmente seria falar e falar infinitamente.
O trecho pertence ao livro de Andrew Keen, figura do Vale do Silício, “The cult of the amateur” (O culto ao amadorismo). Nele, Keen tece críticas contra a construção e difusão do conhecimento na Internet. Segundo ele, nesta época de Wikis e Tubes, presenciamos a uma avalanche de informações cuja comprovação não vai além da “norma da maioria”, ou seja, torna-se “verdade” o que a maioria diz, anonimanete, na Internet.
Calligaris, em sua coluna de hoje na Folha (para assinantes), discute o fenômeno. Para o psicanalista, o livro de Keen “lembra os gritos de alerta que surgiram, no começo do século 19, contra as possíveis perversões da democracia (e, por exemplo, o barateamento do custo da impressão de libelos anônimos). A idéia era que o clamor dos muitos emudeceria a voz dos poucos sábios que, de fato, sabem do que eles falam”.
Isso me lembra o livro de Riesman, “A multidão solitária”, no qual o autor contemplava a subjetividade do sujeito autodirigido da década de 1960. Na Internet, diz Keen (e concordo), todos falam sobre tudo e para todos, mas ninguém ouve (escuta) ninguém. Calligaris, em sua coluna, foi otimista – é preferível a descentralização do saber e da autoridade à centralização do poder e da verdade em um único sujeito (por exemplo, em um juiz ou “schoolar”).
Creio que a Internet reforça uma tese pragmática: o saber e a verdade são “propriedades” coletivas – quer dizer, dependem de convenção social – pela qual uma determinada “maioria” consente com uma idéia ou sentido compartilhado. A cada segundo deve nascer um blog. Eu mesmo, neste momento, estou escrevendo livremente para “você”, meu leitor anônimo. Desejo a interação ou simplesmente o desejo de manifestar-me para uma multidão anônima?