Saiu hoje na Folha de S. Paulo um dossiê sobre a família brasileira (conteúdo para assinantes). Ali são apresentadas as mudanças nos valores desde que a última pesquisa foi feita, em 1998. Entre as mudanças, nossas famílias parecem ser hoje mais toleráveis à união homossexual, ao namoro um pouco mais “liberal” dos filhos e a fidelidade é agora mais importante do que mulher dona de casa ou marido provedor (como em 1998).
Em relação às mudanças nos laços afetivos que unem os casais, Contardo Calligaris escreveu um texto no qual diz que hoje a parceria de vida, de cunho sentimental “tranqüilo”, parece mais forte do que o amor-paixão ou amor-romântico. Deste seu texto destaco a passagem abaixo:
Entre 1998 e hoje, aumentou o percentual das mulheres que consideram como principal qualidade de um marido sua capacidade de ser companheiro e amigo (de 6% para 11%) e de ser atencioso (de 3% para 10%). Que ele ame a esposa é também crucial, mas talvez esteja mudando nossa idéia do tipo de amor que deve acompanhar e sustentar o casamento. Talvez não procuremos mais o amor-paixão (note-se que a vida sexual satisfatória como item necessário para a felicidade da união ficou com um triste 2%), mas um amor companheiro e amigo, “um amor tranqüilo”, como diz a música.
Se isso fosse verdade, a fidelidade, hoje considerada uma qualidade essencial do marido e da esposa, não seria a exigência possessiva da paixão. Existe uma fidelidade que não consiste em evitar aventuras, escapadas e amoricos paralelos; é o tipo de fidelidade que é exigível de um amigo. Talvez, em suma, esteja aparecendo um novo tipo de casamento moderno, baseado, como deve ser, nos sentimentos, mas não no ideal do amor-paixão romântico nem do da satisfação sexual: uma espécie de aliança sentimental para a vida.
Ia terminar comentando que essa transformação do casamento não seria um mal. A verdade é que ela já está em curso, nas inúmeras uniões que continuam e persistem numa amizade em que, às vezes, parece que o amor se perdeu, quando, de fato, é nessa amizade que ele se transformou.