Dei uma entrevista para uma matéria da Superinteressante que deverá sair em breve. Adianto aqui três das perguntas que me foram feitas e suas respectivas respostas.
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Na sua opinião, o trabalho (em empresas) de fato pode ser prazeroso e fonte de felicidade? É realista o individuo encarar o trabalho como uma fonte de realização pessoal?
Acho perigoso. E por uma razão em particular: porque não temos controle sobre nosso trabalho, na medida em que ele se confunde com o emprego. Veja, um executivo não é nada fora de uma empresa. Ele pode dizer – e ouvir – que tem grande valor, pois toma decisões importantes, que têm impacto direto em termos de resultado e sobrevivência da empresa. Mas, se a empresa (leia-se: os acionistas ou investidores) achar que ele não está mais “agregando” o suficiente, ele será sumariamente demitido. Seu valor, que era alto, de repente é reduzido a nada (ao menos na perspectiva da empresa que o demite). Se alguém colocar todas as razões de sua vida (e felicidade) no trabalho, ele estará fatalmente suscetível de uma frustração muito maior. Para o trabalho ser prazeroso ele tem de estar sob o controle do indivíduo e depender menos de fontes externas de reconhecimento. Mas aqui surge um paradoxo: o trabalho é, por definição, social – o que significa dizer que sempre vamos precisar de alguém que reconheça nossas obras e confirme nosso valor. Grande parte do “prazer” surge desse reconhecimento. Mas, como eu disse, a empresa nem sempre é a mais capaz de nos reconhecer. Daí tanta “infelicidade”.
Hoje, cerca de 70% dos brasileiros sofrem de estresse provocado por sobrecarga de trabalho e pressão por produzir mais resultados. Na sua opinião, as pessoas estão felizes com o trabalho? Se não estão, qual a razão disso?
Grande parte das pessoas, creio eu, trabalha por dinheiro e status. Muitos sequer se interessam pelo valor intrínseco ou social de sua profissão. Querem ser reconhecidas, louvadas, aplaudidas e ter, para si mesmas, a sensação de que estão indo bem, de que têm um valor. Não há dúvida de que o stress está associado às condições objetivas de trabalho, de um lado, e também às expectativas irrealistas que as pessoas têm sobre o que o trabalho lhes deve. Isso gera distorções importantes, pois nem sempre a contrapartida de um trabalho duro e extenuante é o reconhecimento e a glória. Muitas vezes, essa contrapartida é a substitução por outro profissional mais esperto e produtivo. O desejo de sucesso, a busca desenfreada por ascensão, está matando as pessoas, sem exagero. No fundo, muitas pessoas buscam sucesso no trabalho em substituição a uma vida interior que elas não têm. A hiperatividade, o frenesi de trabalhar 15 horas ou mais, pode esconder o medo da solidão, uma dúvida cruel e implacável sobre seu próprio valor (ou identidade). Então, há os que trabalham muito como forma de compensação psicológica; há os que trabalham muito porque há uma auto-cobrança impiedosa (ser o melhor, ganhar o máximo, comprar tudo); e há os que trabalham em ambientes doentios, insanos e obsessivos. Estes últimos são, acho eu, os que mais sofrem. E, claro, essa discussão é uma discussão de classe, pois nem estamos mencionando o contingente de pessoas que, ao inverso, não têm nada a fazer (não têm emprego etc.). Estes sofrem com a ausência de atividades.
Em seu livro, o senhor diz que na sociedade de consumo interessa aos trabalhadores, e muito, o quanto se obtém de status com aquele trabalho. E no caso dos indivíduos mais pobres, que fazem trabalhos considerados sem nenhum status (como caixas, faxineiras, operadores de telemarketing), como eles se sentem em uma sociedade que privilegia a aparência (o status)? E que tipo de conseqüência isso pode ter para a relação entre pessoas de diferentes classes sociais?
Excelente questão. Na psicologia há uma linha de pesquisas sobre o que se chama “invisibilidade social”. De fato, quando observamos discursos sobre trabalho, felicidade, auto-realização etc., em geral esse discurso é endereçado aos que estão no núcleo da ordem social – que podem estudar em boas faculdades, que têm recursos para acessar o capital social de seu grupo e da sociedade em que vive etc. Os que trabalham em posições como as que você citou sequer são captados por esses discursos; são profissionais frequentemente “invisíveis”. Entendo que ali não há uma ênfase em carreira, a qual é vivida como uma série muitas vezes não-linear de cargos ocupados. O caixa de supermercado pode querer se tornar supervisor de caixas, que por sua vez pode aspirar a ser gerente de seção etc. A mobilidade é horizontal, muitas vezes. Não há tempo para uma preocupação com “network”, falar outras línguas ou conhecer “outras culturas”. Tempo é sinônimo de sobrevivência. É a sobrevivência o impulso que está na base das “escolhas” de carreira para a classe trabalhadora. O que não significa que não podem melhorar, sobretudo em se considerando a singularidade das pessoas. Mas seria irresponsabilidade ou cinismo dizer que um caixa de supermercado pode se tornar o presidente da rede em que trabalha. Não sei se no Brasil houve a institucionalização do self-made-man, à americana. Aqui, o indivíduo é entregue a si mesmo e tem de “se virar” para sobreviver. Em termos de classe, há um fosso entre os que são “empreendedores” e os que são “gente que se vira”. Ao nível social, esse fosso se expressa na invisibilidade de uma imensidão de trabalhadores.