No ditado popular, reclamar é “coisa de velho”. Os velhos, de acordo com isso, se incomodam com tudo: barulho, temperatura, com o gosto da comida, com os vizinhos, com os filhos e netos e assim por diante. Ora, não sou “velho” ainda e, mesmo assim, me incomodo muito com algumas coisas, em particular com barulho.
Mas, algo tem me chamado a atenção já há algum tempo, pelo menos desde que me mudei para minha nova casa, que fica perto das quadras de futebol dos prédios vizinhos. Sempre, lá pelas 19h da noite ou aos sábados e domingos à tarde, há muitas crianças brincando – na verdade, jogando bola.
Apesar de eu ser psicólogo, e também por nunca ter tido filho ou irmãos pequenos, não entendo bem qual o “comportamento normal” de uma criança ou pré-adolescente, ali perto dos 10 anos de idade talvez. O fato é que quando esses meus vizinhos jogam futebol, o barulho é muito alto.
Mas o que parece me incomodar não é o barulho em si, mas sua agressividade, que me lembra muito o mesmo tipo de agressividade em estádios de futebol ou em outros esportes ou eventos sociais. Como fui criado, quando pequeno, no campo – onde tínhamos muito contato com a natureza – fico a pensar se esse comportamento infantil “metropolitano” não teria a ver com o fato de que essas crianças têm, como único momento de lazer, esses encontros nas quadras – quando podem “soltar” toda sua agressividade (e, ao que me parece, competitiva já desde bem pequenos).
Não penso em “crianças-anjos”, que jogariam futebol em silêncio de intelectuais; contudo, não é possível que a única maneira de se relacionarem seja aos berros, chutes e pontapés. Deve haver aí o sinal de alguma coisa reprimida que precisa, a todo custo e de qualquer jeito, se manifestar.
De novo, sem qualquer pretensão “científica”, talvez seja a mesma coisa que ocorra nos bares, festas e similares, quando parece haver pouca conversa e muito mais um falatório caótico, onde cada um quer falar mais alto, aparecer mais, monopolizar mais para si a conversa e o olhar dos que estão ao redor.
Ok, pode ser que eu seja mesmo “velho”, antiquado e, claro, muito chato. Mas eu acho que a gente, desde muito pequeno, faz barulho demais sem necessidade.