Abaixo transcrevo uma entrevista “fictícia” que fiz com Mintzberg, cujas respostas extraí de um texto contido em seu site – e mencionado aqui em outro post.
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Em um artigo recentemente postado em seu site, intitulado “Como a produtividade matou as empresas americanas”, o senhor faz uma pesada crítica à prioridade que as empresas dos EUA têm dado ao mercado financeiro em detrimento de funcionários, crescimento sustentável e mesmo dos clientes. O senhor poderia nos detalhar seu argumento?
EM: No artigo a que você faz menção, defendo que a produtividade tem destruído as empresas americanas. Isso porque temos de qualificar essa produtividade. Trata-se, na verdade, de ganhos de produtividade no mercado de capitais. Desse modo, entendo que muitos dos ganhos de produtividade sejam, na verdade, perdas de produtividade. Para compreender isso, imagine-se como o primeiro homem de uma grande empresa norte-americana que deseje fazer o máximo de dinheiro da forma mais rápida possível para sua companhia e, claro, para você mesmo. Faça o seguinte: demita todo mundo e venda a partir do estoque. As horas de trabalho, e seus custos, desaparecem ao mesmo tempo em que as vendas continuam crescendo. Você só precisa do incentivo para cortar preços a fim de desembaraçar as ações de sua empresa. Então, a produtividade dispara enquanto você está fazendo caixa – até, é claro, a bolsa quebrar. Portanto, “valor ao acionista” não tem nada a ver com o valor de uma empresa, quanto mais com qualquer valor humano. É um eufemismo para elevar o preço das ações de uma empresa tão rápido quanto possível.
Como isso repercute nos principais executivos da empresa, quiçá até mesmo na preparação dos futuros executivos, os quais parecem cada vez mais destinados à miopia do “máximo valor da empresa” no mercado de capitais?
EM: A pressão que os analistas de mercado exercem sobre os presidentes de empresa e sobre os outros altos executivos é no sentido de elevar o valor das ações na Bolsa. Isso faz com que todos mirem na performance mensurável, em vez de nos produtos, serviços ou nos clientes – em outras palavras, no resultado hoje, e não na sustentabilidade de amanhã. A questão é a seguinte: como fazer com que os funcionários dessas empresas foquem sua atenção na maximização do valor ao acionista quando a maioria deles nunca sequer se depararam com os acionistas, muitos dos quais negociantes diários que compram as ações pela manhã e às vende à tarde? A resposta, consistente com a visão econômica da empresa apresentada antes, é 1) manter uma pessoa, o presidente, responsável pela performance da empresa inteira; 2) motivar essa pessoa com opções de ações e similares; e 3) dar-lhe carta branca virtual para agir como quiser – e de forma rápida. Claro, existe uma retórica sobre construir culturas corporativas no longo prazo e encorajar o trabalho em equipe etc. Mas, na realidade é exatamente o contrário que ocorre: as organizações centralizam o poder nos seus principais executivos a um nível jamais visto em décadas. O mercado financeiro tem de ser atendido, e isso significa adentrar na era da liderança heróica, capaz de fazer com que uma pessoa consiga levar qualquer outra a apresentar uma performance no curto prazo, não importando como.
O que fazer para contornar a situação?
EM: Sugiro um teste simples: qualquer pessoa que, na organização, exigisse um pacote de compensação pessoal massivo que o diferenciasse de qualquer outra pessoa na organização, incluindo proteções que não estão disponíveis para ninguém mais, deveria ser impedida de aspirar à palavra “líder”. Quantos CEOs de hoje passariam no teste? No mais, questione os economistas ingênuos e analistas superficiais; o “valor ao acionista”, que mina o valor da empresa bem como os valores humanos; a “governança”, usada como desculpa para a centralização do status quo; a “liderança” que equivale à arrogância (hubris); a idéia de que a empresa é uma coleção de “agentes” desvinculados de uma comunidade de membros engajados; e questione, por fim, a obsessão com a mensuração de tudo, que põe a quantidade acima da qualidade.