O mês de junho foi um triste para a filosofia: nele, faleceu Richard Rorty, certamente um dos mais influentes filósofos do século vinte. Conheci uma parte do trabalho de Rorty por influência de Jurandir Freire Costa, um dos primeiros que, junto com Luiz Eduardo Soares e Paulo Ghiraldelli Jr., apresentaram suas idéias ao público brasileiro.
Como sou psicólogo, o que mais me surpreendeu nos escritos de Rorty (“lendo-o” nos trabalhos de Jurandir) foi sua criatividade ao abordar o tema do “sujeito” ou da subjetividade. A genialidade de Rorty consistiu, neste caso, em mostrar que o sujeito não era uma “entidade”, que não tinha uma “essência”, independentemente da linguagem, portanto, das práticas sociais nas quais se instituem imagens, representações, “verdades” sobre quem é o sujeito.
À medida que fui lendo Rorty fui concordando com a maioria dos que o lêem: seu estilo é impecável, sua linguagem é instigante e provocadora e, acima de tudo, há nele um visível compromisso com esse mundo presente, com os problemas humanos que levam as pessoas a sofrer. A filosofia, com Rorty, tornou-se uma prática de conversação, como ele costumava dizer. Não tive o privilégio de o conhecer pessoalmente, como foi o caso do próprio Jurandir. Em uma belíssima nota ao falecimento do filósofo, Jurandir nos mostra como Rorty foi exemplo vivo de dignidade, respeito e de comportamento coerente com suas próprias idéias. Sem dúvida, um homem raro.