Se uma época gera mal-estar, ela também gera fervorosos curandeiros. Estou lendo o livro do inglês Francis Wheen, que acaba de sair no Brasil com o título “Como a picaretagem conquistou o mundo”. O pano de fundo de Wheen é a decadência dos ideais do Iluminismo. O vácuo deixado por essa importante escola filosófica é então ocupado por crendices e babozeiras com muita imagem e pouca substância. Esse é o caso dos livros de auto-ajuda, dos gurus empresariais que faturam muito dinheiro vendendo ilusões ou pseudo-ciência, de governantes pretensamente “iluminados” e “gerencialistas” - Wheen cita o caso de sua própria terra, com Margareth Thatcher e do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan. Entra no roldão crítico do autor líderes religiosos, filósofos “pós-modernistas” e todos os catastrofistas de plantão. Estou achando o livro interessante, mas o autor de algum modo me faz sentir diante de um púlpito no qual ele prega contra “o sistema”. No mais, vale a leitura, mas uma advertência: criticar a picaretagem, não ter piedade contra os “ignorantes” ou safados que enganam os outros, dizer “estão errados, não sabem o que dizem, são uns “espertos” etc. leva imediatamente a outra questão: quem está do lado da verdade, afinal? Se não me engano, mesmo correndo o risco de erro grosseiro, não era essa a pretensão do Iluminismo: alcançar a verdade e, a partir dela, “julgar” o mundo? O livro me faz pensar no problema que é, hoje em dia, assumir um lugar para analisar o que se passa à nossa volta. Será que a Razão ainda poderia ser esse lugar?
Invasão de picaretagem
25 Fevereiro, 2007 por bendassolli