Com algum atraso, a revista Época traz uma entrevista com o filósofo francês André Comte-Sponville na qual ele fala sobre seu último livro lançado no Brasil, “A felicidade, desesperadamente” (Martins Fontes, 2005). Lembrando bastante o polêmico filósofo da “anti-felicidade” Arthur Schopenhauer, para quem nossa busca na vida deveria ser pelo não-sofrimento, em vez de pela felicidade absoluta, Sponville argumenta que a felicidade é “Todo lapso de tempo durante o qual a satisfação parece imediatamente possível”.
Para o filósofo, a felicidade pode ser uma ilusão desde que entendida como um estado de bem-estar contínuo ou absoluto durante o qual apenas o prazer acontece. Também pode ser uma ilusão quando miramos nossa atenção ao futuro de nossa vida, na esperança de que lá aconteça alguma coisa conosco que nos faça felizes. Esperar demais, para Sponville, é causa de infelicidade, e não o inverso. Daí sua proposta de felicidade como o estado de quem não espera nada, mas vive o momento presente, agarrando-se a ele como o único momento real.
Como sermos felizes? Há alguma “receita”? O filósofo francês, inspirado em outros como Nietzsche, Spinosa e Montaigne, aposta na ajuda que a filosofia pode nos dar. Para ele, a filosofia cumpre essa tarefa ao nos ajudar a pensar sobre nós próprios e a viver nossos pensamentos. Quando desenvolvemos sabedoria tornamo-nos capazes de discernir sobre a verdade e, conseqüentemente, o que nos faz felizes.
Feliz é o sábio que consegue ficar mais perto da verdade e se libertar das várias ilusões e esperanças tolas. Por exemplo, da ilusão de que quanto mais consumirmos e possuirmos bens e propriedades seremos mais felizes. Lembrando Schopenhauer e Buda, Sponville diz que o sábio cultiva a serenidade, buscando a verdade dentro de si-mesmo e não naquilo que os outros desejam que façamos ou sejamos. O desespero de que fala o filósofo não implica em um pessimismo paralisante, mas em uma postura de vida que acolhe o modo como as coisas são: a pessoa feliz aceita com gratidão quem ela é, em vez de desejar ser o que ela não é ou ter o que ela não tem (ou não pode ter).
Em tempo, a leva de livros sobre felicidade está abundante. Para quem deseja apreciar uma abordagem bem distinta deste tema pelo ângulo da psicologia cognitiva, decerto uma boa dica é o livro do irreverente psicólogo norte-americano Daniel Gilbert, que lançou por aqui seu “O que nos faz felizes” (Campus, 2006). Amparado em estudos experimentais (sobretudo de percepção), Gilbert nos mostra que as causas de nossa infelicidade dependem da incapacidade de nossos cérebros de prever eventos futuros. Refletindo por outros caminhos os pensamentos de Sponville, Gilbert diz que somos infelizes porque esperamos do futuro algo que, quando o futuro chega, não nos torna as pessoas felizes que imaginaríamos ser.