A edição de 25 de dezembro de 2006 da revista “Time” trouxe,
como capa, a matéria “The person of the year: You.”
["A personalidade do ano: Você."]. A idéia da reportagem é de que a Internet fez do indivíduo a grande estrela de uma época em que a “vida virtual” vem se sobrepondo – ou até mesmo substituindo – a vida real. Segundo a “Time”, a rede mundial de computadores tornou-se uma ferramenta para reunir a contribuição de milhões de pessoas e para torná-las importantes.
O argumento é de que tais pessoas controlam hoje a mídia e de que esta espécie de “posse” está provocando uma revolução jamais vista pelo mundo, que por sinal não será mais o mesmo graças a essa “nova democracia digital”, nos termos usados pela revista. Em artigo publicado na Folha de S. Paulo deste último domingo, o filósofo esloveno Slavo Zizek, comenta que, por detrás dessa suposta “democracia virtual” está a negação de diferenças sociais, institucionais e psicológicas importantes. No que diz respeito a estas últimas, Zizek menciona que o “você” que aparece na tela (como na representação da capa da Time) é um “eu” privado de substância.
Até aqui, nenhuma idéia excepcionalmente diferente da que estamos habituados, sobretudo graças a pensadores de linhagem crítica que questionam a mitologia da “liberdade virtual”. No entanto, Zizek prossegue e diz que há um excesso na experiência com o mundo virtual: o “eu” que aparece na Internet extrapola, e muito, o “eu” real. O mecanismo é o seguinte: o que conhecemos por “eu” é, na verdade, resultado de identificações sociais – representamos uma “persona”, uma máscara, em nossos processos de interação cotidianos. Tal persona é, portanto, fruto de repressões: reprimimos o que não podemos mostrar, apesar de, no fundo, desejarmos fazê-lo.
Transpondo isso para o “eu virtual”, raciocina Zizek, o indivíduo não apenas liberará os impulsos “reprimidos” de sua identidade ou persona social (o que é mais comum ouvirmos dizer) como principalmente mostrará seu “eu profundo” na internet. Isso quer dizer que o indivíduo sentir-se-á livre para ser “quem verdadeiramente deseja ser”, não quem “socialmente precisa ser”. O “eu real” que está na frente do computador é então um manipulador de diversas personas, apresentando-se por meio delas todas. No extremo, conclui Zizek, essa discrepância pode culminar em violência homicida devido à inflação de personas virtuais sem-limites.
Duas coisas me chamaram a atenção neste tema. Primeira, a escolha da Time reflete uma sensibilidade de época que não se limita ao universo da Internet: as pessoas desejam, acima de tudo, acreditar que são os senhores de suas próprias vidas. Essa obsessão pela autoria máxima da vida própria está certamente na base de fenômenos como a onda de consumo no mercado cada vez mais focado em produtos “personalizados”; na busca por religiões que se ajustem o mais fácil e convenientemente aos nossos próprios desejos; ou no “narcisismo de massa” de que somos testemunhas na atualidade.
A segunda coisa que me chamou a atenção, agora na matéria de Zizek, é sua leitura do conceito de identidade. De fato, não é apenas uma identidade virtual catártica que encontramos na internet, mas antes a própria capacidade de o indivíduo manipular identidades de acordo com seu desejo, sem dores-de-cabeça ou repressões. Cada “você” do mundo virtual é um “eu real” que manipula diversas personas de acordo com sua vontade. O que deve nos preocupar aqui é como ficam os relacionamentos com os “outros”: ou assistimos ao desaparecimento do outro como um sujeito ou então , como diz o próprio Zizek, estamos diante de um imenso”murmúrio virtual”.
Maravilhoso texto sobre as utopias que a internet nos coloca. Quanto a democratização e uma vida imaginária descaratável líquida, vemos que esta aura que vivemos hoje de um mundo que você pode assumir várias formas, cria uma ilusão sem perder a identidade e de tudo sempre estar a disposição a tudo e a todos. Acredito que isso pode levar a uma imposição do dizer sempre “sim” ao prazer, ao deixar rolar, que muitas vezes nos torna escravos da falácia que estamos vivendo neste tempo de liberdade individualista.