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Revista época

Edição 15 – Maio de 2008 | 06/05/2008 – 05:52

É preciso resgatar o trabalho lúdico

O trabalhador atual não sente mais prazer em fazer as coisas bem-feitas, diz o sociólogo Richard Sennett

Álvaro Oppermann

Entre as centenas de títulos lançados nos últimos meses pela indústria editorial de língua inglesa, é possível pinçar, aqui e ali, uma obra realmente profunda e, sem ousadia, indispensável. É o caso de The Craftsman (“O artesão”), de Richard Sennett.

O sociólogo é uma daquelas personalidades iluminadoras no debate de idéias. Norte-americano de nascimento, mas um quase inglês por vocação (mora há décadas em Londres, onde leciona na London School of Economics and Political Science), ele ficou conhecido nos anos 90 como mentor de Tony Blair e um dos pais intelectuais da Terceira Via. Mas ele é mais do que isso. Para achar equivalentes intelectuais a Sennett talvez seja necessário recuar à geração do falecido E. P. Thompson, sociólogo e autor do clássico The Making of the English Working Class (“A formação da classe trabalhadora inglesa”), que chacoalhou o marxismo nos anos 60. Thompson provava que, para definirmos o que é uma classe social, não bastavam distinções econômicas mas também elementos culturais e psicológicos. Sennett, por sua vez, também possui esse dom, bem comum à estirpe de pensadores anglo-saxões como Thompson, de criar obras que são influentes e provocam mudanças em políticas públicas ou privadas.

Nos anos 90, seu estudo A Corrosão do Caráter serviu em muito para abrandar exageros liberais ainda da era Thatcher. Por sua vez, Respeito: a Formação do Caráter num Mundo Desigual inspirou políticas públicas de Blair. (Malandramente, o político acabou usando o cacife e a reputação ilibada de Sennett para legitimar a instauração de uma versão mais palatável do “tolerância zero” nas ilhas britânicas no pós-11 de Setembro).

Não será de estranhar se, na próxima década, estivermos falando de temas como o valor do trabalho artesanal na vida corporativa. Pois é disso que trata The Craftsman. Para Sennett, nosso senso de bem-estar e de inclusão social deriva em muito de uma atividade à qual a moderna jornada de trabalho é hostil – o velho e paciente artesanato. Mas não pense que o sociólogo é um sujeito nostálgico. “Quando falo do artesão, estou me referindo tanto ao mestre que faz violinos quanto ao cientista no laboratório, ou à equipe que desenvolve o software Linux”, diz Sennett. “Artesanato”, na sua definição, é simplesmente uma atividade que é aprendida pela observação, prática e repetição. Ela tem, assim, um caráter lúdico, como as brincadeiras de criança. Numa medida aproximada, estima o sociólogo, são necessárias 10 mil horas para que alguém atinja a maestria em algo, seja esse algo aprender uma arte marcial ou a arquitetura de softwares. O perigo, afirma o sociólogo, é que a cultura moderna – e em especial a cultura corporativa moderna – não valoriza esse modus operandi. “Existe esse impulso humano básico de ter prazer nas coisas bem-feitas e ver no zelo artesanal um fim em si mesmo. Desafortunadamente, fazer um bom trabalho não é mais garantia de sucesso. Nas empresas e na política, os tubarões e incompetentes não encontram problemas para se tornar bem-sucedidos”, critica Sennett.

Ironicamente, afirma, o desprestígio do artesanato trouxe a reboque uma hipervalorização das ditas artes (pintura, música etc.), talvez como compensação à perda social decorrente. “Nós ficamos hipnotizados frente a noções como ‘inspiração’, ‘gênio’, ‘criador solitário’, quando, no ambiente em que viveu Da Vinci [no qual o artesão era um tipo legítimo, não estigmatizado como nos dias de hoje], as artes plásticas eram vistas como uma atividade comum. Pelo próprio Da Vinci. Fazer um bom quadro não era diferente de fazer uma bela cadeira”, diz.

Para o bem do equilíbrio humano, receita o sociólogo, o valor da qualidade artesanal terá de ser resgatado. No que isso poderá afetar a vida das corporações? “Para que as horas da jornada de trabalho sejam significativas é preciso que haja o desejo por parte do profissional de fazer um bom trabalho, e de se orgulhar dele”. Segundo estudos britânicos e norte-americanos, a competência e o engajamento profissional são as duas principais fontes de auto-estima do trabalhador. A proposta de Sennett caminha nessa direção.

Caveira motivacional

MAELI PRADO
DA REVISTA DA FOLHA

“Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você.” Os versos da trilha sonora de um dos filmes brasileiros mais vistos e comentados dos últimos tempos ecoam no pequeno auditório da sede da seguradora Unibanco AIG, em um casarão da avenida Brasil, em São Paulo. São 20h de uma quinta-feira, 28 de fevereiro, quando o “caveira 69″, Paulo Storani, 45, ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais), é anunciado à platéia. Um slide com a frase “Construindo uma Tropa de Elite” esclarece o motivo do improvável encontro de mundos: um ex-policial do grupo de operações especiais da Polícia Militar do Rio e vendedores de seguro.
Sob aplausos, o palestrante entra na sala repleta e grita: “Caveira!”. Storani, que está se convertendo em estrela do segmento motivacional, recebe de volta, em uníssono, a saudação, típica dos oficiais do batalhão. Entre os 60 ouvintes, estão clientes e funcionários da quarta maior seguradora do país. Poucas mulheres, todas de tailleur e salto alto, arriscam-se no ambiente masculino.
Storani veste terno e gravata como sua platéia, mas fala e age como um líder do Bope, corporação onde trabalhou por três anos e que abandonou há dez. Depois de um rápido preâmbulo, o palestrante chega ao ponto: “Você é um operação especial ou é um convencional na sua atividade? O convencional é o invertebrado, é quem desmonta no primeiro tiro ou na primeira meta [de vendas]“.
Storani inflama a platéia com a terminologia usada pelos policiais no filme. “E quem não está satisfeito…”, provoca ele. O público reage: “Pede pra sair!”
Àquela altura, uma hora depois do início, a audiência está bem familiarizada com as lições de Storani. Seu manual evoca paralelos entre as regras do batalhão e as do mundo corporativo: naquele contexto, o jargão do Bope “missão dada é missão cumprida” ganha a conotação de “meta dada é meta cumprida”. “Vá e vença” vira “Vá e venda”. Alguns riem, um pouco constrangidos. Muitos balançam a cabeça em sinal de concordância.
Por volta das 21h30, o “grand finale”. Liderados pelo palestrante, todos gritam: “Eu sou caveira!”. As cenas presenciadas pela reportagem viraram rotina na vida de Storani. Ele começou a dar palestras motivacionais em outubro e está com a agenda lotada até maio. Nesse ramo, os cachês variam de R$ 5.000 a R$ 10 mil.
O ex-capitão do Bope já falou para funcionários de bancos, de montadoras, de indústrias das áreas têxtil e de tecnologia. Virou guru de executivos. “O conceito de superação de limites e de encarar as adversidades com naturalidade pode ser aplicado à iniciativa privada”, afirma Storani, mestrando em antropologia com dissertação sobre o Bope. Ele ainda concilia a agenda de palestrante com o cargo de secretário de Segurança Pública de São Gonçalo, município do Rio de Janeiro.

Fonte: Folha de São Paulo (23 de março de 2008)

De acordo com a teoria do professor Valadares, a humanidade tem três apetites: a fome, o sexo e o fasma. “3 Efes” mostra como essa teoria funciona na prática.

 

“3 Efes” é uma comédia dramática que aborda as dificuldades – afetivas, financeiras e culturais – enfrentadas por um grupo de personagens que circula em torno de Sissi, uma jovem universitária que sustenta, a duras penas, o pai viúvo e o irmão pequeno.

Nessa situação de dificuldade, Sissi recorre aos conselhos de sua tia, Martina, uma dona-de-casa entediada que, em meio a uma crise no seu casamento com o publicitário Rogério, fica irresistivelmente atraída por William, um simples catador de papel.

Rogério também está em apuros: sua última campanha publicitária deu errado, e agora ele precisa dar um jeito de salvar seu emprego – de qualquer jeito. Assim, sob todas essas pressões do cotidiano, os personagens acabam tomando importantes decisões que vão mudar muita coisa entre eles – e também provocar algumas situações inusitadas.

“3 Efes” constrói uma história com personagens de uma grande cidade brasileira, Porto Alegre, vivendo dilemas éticos comuns a muitas pessoas de qualquer canto do mundo: até onde se pode ir para manter um emprego ameaçado, sustentar uma família na fronteira da fome, ou dar vazão a desejos que a sociedade condena?

Fonte: site do filme.

Assista ao filme no site do Terra, clicando sobre o pôster.

Inveja

Ainda acompanhando as repercussões do livro de Keen, agora é a vez da Folha de São Paulo, para a qual ele deu uma entrevista meses atrás. Destaco algumas passagens logo abaixo.

FOLHA – O sr. também vê um resquício da cultura hippie na web 2.0?
KEEN
- Há um legado hippie na filosofia libertária da blogosfera, no desprezo à autoridade, à mídia tradicional. Acho que a autoridade do Estado, da mídia, são coisas que devemos prezar, porque têm valores significantes que, se minados, criariam a anarquia. A rejeição da autoridade vista nos blogs não é progressista, é anarquista.

FOLHA – O fato de o sr. ter um blog não é paradoxal?
KEEN
- Tenho blog para vender o livro e construir minha marca. A internet é uma grande plataforma de marketing, mas é preciso ter algo por trás. Meu livro não defende que as pessoas não tenham blogs, apenas que não finjam que são substitutos da mídia tradicional ou representantes de fontes de informação confiáveis sobre o mundo. Como as pessoas saberiam da crise aérea brasileira, por exemplo, sem jornalistas profissionais? Iam ter de se basear em blogueiros, que podem ser representantes das companhias aéreas ou do governo?

Pesquisando mais sobre as repercussões das idéias de Andrew Keen na net brasileira, encontrei uma entrevista dada por ele à Época, a qual pode ser conferida no site da revista. Dela destaco alguns trechos a seguir.

ÉPOCA – Alguns especialistas consideram a web 2.0 uma manifestação da “sabedoria da multidão”…
Keen – Na teoria, a sabedoria da multidão pressupõe o envolvimento de todos. Nesse caso, todo mundo estaria envolvido, todo mundo estaria editando a Wikipédia, todo mundo estaria adicionando recomendações no Digg ou no Reddit, todo mundo estaria adicionando resenhas no Amazon e talvez isso fosse um bom trabalho. Mas, na realidade, a maioria de nós não faz isso porque não tem tempo, interesse ou energia. O que chamamos de “sabedoria da multidão” tem sido seqüestrado por uma pequena elite, por uma oligarquia. Somos atingidos por uma cultura em que as pessoas no controle não são transparentes ou responsáveis. Isso é assustador.

ÉPOCA – No livro Como a Picaretagem Conquistou o Mundo, o jornalista inglês Francis Wheen mostra que teses absurdas, tolas ou falsas são aceitas com facilidade. A web 2.0 é uma delas?
Keen – Há muita picaretagem sobre a web 2.0. As três palavras que representam as maiores picaretagens na internet são os “3Cs”: conversação, colaboração e comunidade. É por isso que escrevi meu livro. Para dizer: “Olhe, a maior parte disso não é verdade, é apenas bobagem, é picaretagem, lixo”. Mas há mais que isso em jogo. Há gente ficando rica com tudo isso. Quem tem ações do Google, YouTube, MySpace está juntando uma fortuna. É um negócio sério, há interesses importantes demais envolvidos para ignorarmos o que está acontecendo.

Midnight oil

Vou no embalo da sugestão contida no excelente blog do amigo Maurício Serafim e reproduzo aqui uma música do Midnight oil, “Beds are burning”. Adoro esta música e ela continua bastante oportuna nessa época de aquecimento global.

Descontrole do tempo

Assista a uma conferência com o filósofo Franklin Leopoldo e Silva. O tema é o descontrole do tempo histórico e a banalização da experiência. No geral, o acervo do Programa Cultura e Pensamento, do Ministério da Cultura (de onde provém esta conferência), é de alto nível e inteiramente recomendável para quem se interessa por temas gerais de cultura e subjetividade. Abaixo, um resumo da conferência do filósofo. 

Vivemos na atualidade a forte aceleração do tempo histórico, em que a experiência da sucessão é marcada mais pelas rupturas do que pela continuidade, o que conduz a um fluxo de mutações mais rápido do que o ritmo de nossa experiência da temporalidade. Por não apreendermos inteiramente o significado dessa velocidade do devir histórico, resignamo-nos a tomar tal fluxo acelerado como um fim em si mesmo, o que leva ao empobrecimento existencial e histórico, e, por conseqüência, à banalização da experiência.

Direto do site do Programa Cultura e Pensamento.

Mudanças nos sentimentos

Assista a um vídeo com o sociólogo francês Eugène Enriquez. Nele, o autor mostra que os sentimentos mudam de acordo com a dinâmica social. Enriquez é autor de uma obra extensa sobre as afetividades e os jogos de poder em que estão envolvidas.

Dessa anarquia, ficou subitamente claro que os macacos infinitos que agora abasteciam a internet eram governados pela lei do darwinismo digital: sobreviveria quem gritasse mais alto e expressasse sua opinião com mais força. Dessa forma, a única maneira de prevalecer intelectualmente seria falar e falar infinitamente.

O trecho pertence ao livro de Andrew Keen, figura do Vale do Silício, “The cult of the amateur” (O culto ao amadorismo). Nele, Keen tece críticas contra a construção e difusão do conhecimento na Internet. Segundo ele, nesta época de Wikis e Tubes, presenciamos a uma avalanche de informações cuja comprovação não vai além da “norma da maioria”, ou seja, torna-se “verdade” o que a maioria diz, anonimanete, na Internet.

Calligaris, em sua coluna de hoje na Folha (para assinantes), discute o fenômeno. Para o psicanalista, o livro de Keen “lembra os gritos de alerta que surgiram, no começo do século 19, contra as possíveis perversões da democracia (e, por exemplo, o barateamento do custo da impressão de libelos anônimos). A idéia era que o clamor dos muitos emudeceria a voz dos poucos sábios que, de fato, sabem do que eles falam”.

 Isso me lembra o livro de Riesman, “A multidão solitária”, no qual o autor contemplava a subjetividade do sujeito autodirigido da década de 1960. Na Internet, diz Keen (e concordo), todos falam sobre tudo e para todos, mas ninguém ouve (escuta) ninguém. Calligaris, em sua coluna, foi otimista – é preferível a descentralização do saber e da autoridade à centralização do poder e da verdade em um único sujeito (por exemplo, em um juiz ou “schoolar”).

Creio que a Internet reforça uma tese pragmática: o saber e a verdade são “propriedades” coletivas  – quer dizer, dependem de convenção social – pela qual uma determinada “maioria” consente com uma idéia ou sentido compartilhado. A cada segundo deve nascer um blog. Eu mesmo, neste momento, estou escrevendo livremente para “você”, meu leitor anônimo. Desejo a interação ou simplesmente o desejo de manifestar-me para uma multidão anônima?

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